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Resenha Crítica - Cap. 5 - Ecologia Política

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Geografando Território
há 5 dias
5 min de leitura

LEFF, Henrique. Ecologia política. Da desconstrução do capital a territorialização da vida. Campinas: Editora Unicamp, 2021. 503p.



Lauani Vitória Gouveia de Paula


O capítulo começa discutindo a globalização. Leff afirma que o mundo sempre foi um globo, mas a globalização que interessa à sua análise é a econômica, que se inicia com as grandes navegações e se intensifica com o capitalismo. O ponto principal é que, com o tempo, essa globalização passou a ser guiada por uma lógica econômica que se expandiu para todos os aspectos da vida.

Assim, não se trata apenas de um processo de integração entre países, mas também da imposição de uma racionalidade dominante, a racionalidade econômica, como afirma o autor, “Esse processo de expansão econômica culminou em sua saturação, no limite da sua extrema vontade de globalizar o mundo, engolindo todas as coisas e introduzindo o código da racionalidade econômica” (LEFF, 2021, p. 111).

Portanto, a discussão não envolve apenas o comércio, mas também uma determinada forma de pensar e organizar a sociedade. Na sequência, o autor apresenta uma crítica importante ao destacar que a natureza não possui, em si mesma, uma lógica econômica. Quem atribui valor econômico à natureza é o próprio ser humano. Dessa forma, quando tudo passa a ser medido em termos de valor de mercado, a natureza é reduzida à condição de recurso. Nesse sentido, Leff afirma que “A natureza e até mesmo o ser humano se converte em moeda” (LEFF, 2021, p. 112).

Ao longo das páginas seguintes, a crítica à globalização é aprofundada. O autor argumenta que esse processo promove uma homogeneização cultural, fazendo com que diferentes culturas, modos de vida e formas de relação com a natureza sejam progressivamente padronizados. Além disso, a natureza deixa de ser vista como algo complexo e passa a ser compreendida como mercadoria.

É nesse contexto que surge uma das principais discussões do capítulo: a capitalização da natureza. Leff argumenta que a biodiversidade, os ecossistemas e até mesmo os conhecimentos tradicionais passam a ser vistos como reservas de recursos econômicos, especialmente para as indústrias farmacêuticas e alimentícias. Surge, então, a ideia de “capital natural”, na qual esses elementos adquirem valor não pelo que representam em si, mas pelo potencial de gerar lucro, seja por meio de recursos genéticos, do turismo ou da capacidade de absorção de carbono. O autor problematiza essa lógica ao demonstrar que essa valorização econômica não significa necessariamente preservação. Em muitos casos, trata-se apenas de uma nova forma de apropriação da natureza sustentada por um discurso ambiental.

Leff também apresenta uma crítica ao desenvolvimento sustentável. Ele não rejeita a ideia de sustentabilidade, mas argumenta que o discurso dominante foi apropriado pelo capitalismo. Dessa forma, busca-se conciliar crescimento econômico e preservação ambiental sem alterar a lógica que produziu a própria crise ecológica. Para o autor, essa proposta é contraditória, uma vez que a racionalidade baseada no crescimento contínuo foi justamente a responsável pelos problemas ambientais atuais.

Segundo Leff, essa lógica decorre do pensamento moderno, que separa o ser humano da natureza e transforma o mundo natural em objeto de exploração. A dificuldade em reconhecer que o ser humano também faz parte da natureza contribui para a manutenção dessa visão economicista. Outro aspecto discutido no capítulo refere-se aos mecanismos ambientais de mercado, como o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) e o mercado de carbono. A proposta desses instrumentos consiste em compensar emissões de gases poluentes por meio de investimentos em projetos ambientais. Entretanto, o autor argumenta que tais mecanismos não reduzem efetivamente a poluição. Na prática, permitem que os países mais ricos mantenham seus níveis de emissão enquanto os países mais pobres assumem o papel de compensadores ambientais, disponibilizando sua biodiversidade ou sua capacidade de absorção de carbono. Como consequência, consolida-se uma desigualdade ecológica global, na qual os países do Sul assumem custos ambientais enquanto os países do Norte mantém seus padrões de produção e consumo.

Leff também analisa os acordos ambientais internacionais, especialmente aqueles estabelecidos a partir da Rio-92. Embora reconheça avanços importantes, o autor aponta diversos limites, principalmente porque esses acordos continuam subordinados à lógica econômica e às regras do comércio internacional. Instituições ligadas ao comércio possuem, muitas vezes, maior influência do que os próprios tratados ambientais. Além disso, mecanismos como a compra e venda de direitos de poluição acabam transformando a crise ambiental em uma nova oportunidade de mercado.

Dessa forma, o desenvolvimento sustentável pode funcionar como uma espécie de ilusão, criando a impressão de que os problemas ambientais estão sendo solucionados quando, na realidade, a lógica que os produz permanece inalterada. O capitalismo incorpora as críticas ambientais, mas sem promover mudanças estruturais em seu funcionamento.

Apesar disso, Leff destaca que a transformação da natureza em capital também gera processos de resistência, especialmente por parte dos povos indígenas e das comunidades tradicionais. Nesse sentido, afirma que: “Esses movimentos de resistência e reexistência dos povos da terra articulam-se à construção de um paradigma alternativo de sustentabilidade, no qual os recursos ambientais aparecem como potenciais capazes de reconstruir o processo econômico seguindo uma nova racionalidade produtiva, propondo um projeto social baseado na autonomia cultural e na produtividade da natureza” (LEFF, 2021, p. 124).

A partir desse ponto, o autor passa a discutir a noção de território. Para Leff, o território não corresponde apenas a um espaço físico, mas a um espaço de vida, identidade, cultura e poder. É nele que se constroem as relações entre sociedade e natureza. Por essa razão, a sustentabilidade não pode ser pensada de forma abstrata ou universal, mas deve estar enraizada nos territórios.

Essa perspectiva conduz à crítica da ideia de “pensar globalmente e agir localmente”. O autor argumenta que, muitas vezes, essa formulação acaba impondo uma visão global homogênea, desconsiderando as diferenças culturais e territoriais. Em contraposição, defende o reconhecimento da diversidade de formas de viver, produzir e se relacionar com a natureza.

Nesse contexto, ganha destaque a política da diferença, baseada no direito dos povos de manterem suas culturas, seus modos de vida e suas formas próprias de apropriação da natureza. Os povos indígenas, camponeses e comunidades tradicionais representam, para Leff, racionalidades distintas da lógica mercantil dominante.Surge, então, a proposta da reapropriação social da natureza. Isso significa retirar a natureza do controle exclusivo do mercado e fortalecer o papel das comunidades que vivem e constroem suas relações nos territórios. Essa proposta envolve autonomia, identidade cultural e participação política.

A alternativa apresentada pelo autor é a construção de uma racionalidade ambiental. Essa nova racionalidade reconhece os limites ecológicos do planeta, valoriza a diversidade cultural e ecológica e busca formas de organização econômica que não sejam orientadas exclusivamente pelo lucro. Ao final do capítulo, Leff sustenta que a crise ambiental não será resolvida por meio de mais mercado, mais tecnologia ou mais crescimento econômico, uma vez que esses elementos fazem parte da própria lógica que gerou a crise.

A superação dos problemas socioambientais exige uma transformação mais profunda nas formas de organização da sociedade, da economia e das relações com a natureza. Assim, a sustentabilidade deixa de ser apenas um conceito técnico e passa a constituir um projeto político fundamentado na diversidade cultural, na justiça ambiental, na valorização dos territórios e na autonomia dos povos.

 
 
 

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