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Resenha Crítica - Cap. 3 - Ecologia Política

Foto do escritor: Geografando Território
Geografando Território
15 de jun.
3 min de leitura

LEFF (2021). Capítulo 3: Espaço, Lugar e tempo: a construção local da racionalidade ambiental. p. 65-84.


Sheila Castro dos Santos


[…] O espaço e o lugar emergem como os significantes da res extensa, nos quais se ressignifica a natureza como pedras angulares e suportes materiais de um processo democrático de sua própria reconstrução. O espaço e o lugar são construídos como categorias georreferenciais para enraizar estratégias de reapropriação da natureza em processos ecológicos e identidades locais, atribuindo um significado cultural a construção de territórios sustentáveis. O lugar e o espaço como referentes geográficos estão sendo significados pelo tempo vivido como condição existencial que arraiga os potenciais ecológicos em imaginários e práticas culturais. (Leff, 2021, p. 65).

 

Leff (2021) utiliza o conceito de Descarte de Res extensa, entendida como substância material ou física do universo, caracterizada por ocupar um espaço e ter forma e movimento. Para indicar que é no lugar, onde ocorre a materialização das verticalidades e horizontalidades do mundo. E, no plano fenomenológico, a mente humana é impactada e transforma a natureza em insumo/matéria prima, que pode e/ou deve ser explorada, sofrendo diretamente as estratégias humanas das materialidades políticas, econômicas da racionalidade tecnocientífica. Com esta perspectiva é preciso retirar cada vez mais do ambiente para obterem lucro, e cada vez mais se produz desigualdade. O lugar é tão impactado que reifica e ressignifica a existência natural para a existência tecnoeconômica.

A partir da racionalidade tecnoeconômica evidenciado por Leff (2021) o impedimento da humanidade de interação ontológica com a natureza, é a transformação do ser humano ‘desnaturalizado’ apartado da natureza, relegando as sociedades capitalistas ações cada vez mais depredatórias. Em via contrária, os povos tradicionais que ainda ocupam e utilizam o solo como partes da natureza, conectados a ela, possuem o modo de vida, a cultura ainda em conexão com a utilização dos elementos ou as potencialidades da natureza com interação, fazem manejo utilizam os elementos da natureza com parcimônia e respeito.

É uma nova política do espaço, do lugar e do ser está sendo construída a partir do sentido do tempo nas lutas atuais pela identidade, pela autonomia e pelo território. É uma política do ser cultural o que está por trás do clamor pelo reconhecimento dos direitos a sobrevivência. (Leff. 2021, p. 79).

 

É na perspectiva cultural de sustentabilidade étnica que podem ser realizadas ações para diminuir o impacto predatório nas potencialidades da natureza, e pode ocorrer a “neguentropia”, “princípio material e termodinâmico que cria a vida e que mantém os ecossistemas que dão suporte a vida do planeta. A sustentabilidade se constrói, assim em um complexo processo de organização neguentropico/entrópico da vida” (Leff, 2021, p. 28). Nessa perspectiva, a homogeneização da racionalidade tecnoeconomica é substituída pela diversidade cultural e ancestral, com o uso sazonal do solo, com a “neguentropia” direcionando a uma constância nas formas de utilização do solo com menos dano possível. Pois, as ancestralidades das etnias já faziam o manejo do uso do solo. (Leff, 2021, p. 70), sendo uma perspectiva de uma economia familiar e comunitária diferente da racionalização econômica.

Ademais, a finitude da existência, seja material, corporal ou cultural não foi inserida na cultura da racionalidade tecnoeconômica. Já na cultura ancestral, a morte é uma passagem para outro estado da natureza, o ser humano não deixa o planeta ele se integra a ele. Talvez pensar e agir para um retorno a coletividade. Pois como Leff (2021, p. 83) apontou vivemos na “era do vazio”, no sentido do conceito descrito por Levinas (1999), como o ‘vazio existencial da sociedade atual’, na qual o foco é no prazer imediato, no consumo, no individualismo e no narcisismo, deixando de lado o pensamento que leva em conta a coletividade.

Esse conceito explicita bem a cobiça e ambição humana desenfreada, que é contínua mesmo nos conduzindo a extinção. Para um “neguentropico” e “de outro modo que ser”, onde “o tempo é o significante que orienta a reapropriação social da natureza e a rempropriação da vida na construção local da racionalidade ambiental” (Leff, 2021, p. 66), o conceito que concentra o objetivo na alteridade, em uma postura ética baseada na responsabilidade pelo outro, ou seja, o coletivo faz sentido, pois pertenço a ele e estou dentro de um lugar conectado ao mundo, é a desconstrução do egoísmo ontológico ou da racionalidade tecnoeconômica que pode nos transformar individualmente para agirmos coletivamente. Os territórios, nessa concepção são onde a ética da sustentabilidade deve ocorrer, nas escalas do vivido, municípios, bairros, ruas e residências.

 

Referência

LEFF, Henrique. Ecologia política. Da desconstrução do capital a territorialização da vida. Campinas: Editora Unicamp, 2021. 503p.

 
 
 

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