Resenha Crítica: Prólogo e Cap. 1 - Ecologia Política
LEFF, Henrique. Ecologia política. Da desconstrução do capital a territorialização da vida. Campinas: Editora Unicamp, 2021. 503p.
Maico Eduardo Dias
06 de maio de 2026
O prólogo da obra Ecologia Política: da desconstrução do capital à territorialização da vida é apresentado como uma construção intelectual evolutiva, consolidada ao longo de 40 anos de reflexão e trabalho. O autor, Enrique Leff, descreve o livro não como um projeto planejado desde o início, mas como um conjunto de ideias que amadureceu em resposta às crescentes complexidades da questão ambiental. Esta trajetória reflete o próprio deslocamento do seu pensamento, partindo do ecomarxismo e da desconstrução da teoria do valor, o autor avança em direção à crítica da racionalidade da modernidade e à fundamentação de uma racionalidade ambiental baseada em uma ontologia da vida.
Enrique Leff utiliza analogias artísticas para explicar a estrutura do livro, comparando-o à evolução cromática de uma sinfonia ou ao movimento de um mural progressivo. Ele optou por manter a integridade temporal dos textos originais, permitindo que o leitor observe a transição de conceitos, como o surgimento da distribuição ecológica e das ecologias da diferença, que buscam responder ao que não era mais pensável dentro dos esquemas tradicionais do marxismo.
A ideia central do prólogo reside na apresentação de uma ontologia política que enfrente a crise civilizatória provocada pelo pensamento da ciência logocêntrica, que historicamente contribuiu com a crise ambiental. Leff argumenta que o campo da ecologia política latino-americana não é apenas uma disciplina acadêmica, mas um processo de rexistência e emancipação da vida. Esse processo busca dar voz à despossessão sofrida pelos povos tradicionais e promover a reorientação da civilização a partir das condições de existência dos Povos da Terra.
O autor encerra o prólogo reafirmando um compromisso ético que, objetiva desconstruir o regime ontológico do capital, que deslocou a vida em prol da acumulação, para trilhar caminhos que conduzam à territorialização da vida. Por meio da proposição de diálogo de saberes, a obra propõe a construção de horizontes de sustentabilidade que transcendam a racionalidade econômica dominante e resgatem a dignidade da existência humana no planeta.

Capítulo 1 - Libertando a Sustentabilidade da Vida
No primeiro capítulo, intitulado Libertando a Sustentabilidade da Vida, Enrique Leff realiza uma análise profunda da crise ambiental, definindo-a não como um simples desequilíbrio ecológico, mas como uma verdadeira crise de civilização que expõe o esgotamento dos modos de conhecimento e produção da modernidade. O autor argumenta que, embora o alarme ecológico tenha soado há décadas, a resposta institucional consolidada no termo sustentabilidade acabou se tornando um simulacro, uma espécie de máscara que procura enverdecer o sistema atual sem questionar as raízes que levaram ao colapso. Essa falsa promessa surge da tentativa de manter a racionalidade econômica, uma lógica que domina o mundo moderno ao transformar a vida e a natureza em mercadorias e recursos manipuláveis para o lucro.
Essa insustentabilidade é explicada por Leff através do conceito de entropia, que demonstra que o processo econômico industrial funciona como uma "megamáquina" que consome matéria e energia escassas para produzir resíduos e calor irreversíveis. O crescimento infinito desejado pelo capital acelera, portanto, a morte entrópica do planeta, degradando os sistemas que dão suporte à vida. Para romper com esse destino, o autor propõe a neguentropia como o princípio material da vida. Através da fotossíntese, a vida organiza a energia solar em biomassa, criando um caminho de evolução que contraria a desordem entrópica, o que fundamentaria um novo paradigma de produção baseado na produtividade da natureza e na criatividade cultural.
No campo da geografia e das relações de poder, Leff critica a geopolítica do desenvolvimento sustentável, que utiliza mecanismos globais de gestão ambiental para promover uma colonização neoecoliberal dos territórios. Ele denuncia que ferramentas como o mercado de carbono permitem que o capital internacional continue sua expansão ao atribuir valor econômico à conservação de florestas no Sul Global, muitas vezes deslocando populações de seus lugares de origem. Contra essa lógica globalizante e homogênea, o autor defende a territorialização da vida, um processo onde a sustentabilidade é construída a partir da realidade local, respeitando as condições ecológicas e os sentidos culturais de cada território.
Nesse sentido, o autor enfatiza que a sustentabilidade não é um estado de equilíbrio estático a ser alcançado, mas um processo de organização neguentrópica que deve ser guiado pela ética e pela responsabilidade histórica. Isso implica que a produção deve ser reorientada para preservar e dignificar o princípio da vida, integrando a evolução biológica com a diversidade simbólica da humanidade. Leff ainda argumenta que, o tempo e o espaço não são apenas categorias abstratas da razão, mas dimensões vividas onde se manifestam as lutas pela identidade e pela autonomia. Assim, a sustentabilidade real emerge da capacidade de cada comunidade de forjar seu próprio futuro, protegendo seu patrimônio biocultural contra as pressões de um progresso que tem sido na verdade insustentável.
Por fim, a libertação da sustentabilidade exige o que Leff chama de diálogo de saberes, um encontro entre a ciência e os conhecimentos tradicionais que reconheça a alteridade e a diversidade do ser. Os verdadeiros protagonistas dessa mudança são os Povos das Terras, indígenas, camponeses e comunidades tradicionais, que mantêm uma racionalidade ambiental enraizada em seus modos de vida e no respeito com a natureza. Para o autor, reconstruir um mundo sustentável demanda mais do que tecnologia, requer uma mudança ética que reoriente o pensamento, permitindo que a vontade de poder sobre a natureza seja substituída pelo desejo de vida, aproximando-nos do mundo com uma nova sensibilidade individual e coletiva.



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